16.3.10

boa viagem pra você, no melhor tempo possível

O tempo amazônico esgotou-se?

por João Meirelles Filho, revista Brasileiros
Novas ondas temporais invadem espaços imprevisíveis. O sertão era o limite entre a casa e o mato, entre o mito e o conhecido.  Hoje é definido pelo alcance do celular

O Homem é esse macaco indeciso, que pula da árvore “pretéritomais- que-imperfeito” para a árvore “futuro-mais-que-perfeito”, sem ter certeza do que quer.
Desperdiçamos as oportunidades de dar a volta por cima e aprender com a Amazônia, sua gente e natureza.  Se é inalcançável retornar ao tempo histórico, em que a natureza nos impunha respeito, quando se mediam viagens em marés, e anos em cheia e seca, é possível aprender suas lições.
A cada shopping center em Belém, distanciamo-nos do tempo amazônico.  Porque neste templo do tempo tudo é controlável e previsível – o frescor, a luz, não há brechas para surpresas.  O Homem acredita-se protegido ao controlar o “tempo” com o controle remoto do ar-condicionado.  Lá fora, “no tempo”, no espaço expandido e indomável, as marés seguem sua vigília, as temperaturas banho-mariam em seu calor, e as chuvas galgam as valas abertas pelo homem e os bois-dos-homens.
Somos capazes de esquecer hábitos milenares, como a sesta, quando o corpo se entrega à natureza e há imediata recompensa.  No “tempo presente-infinito”, trocamos a exigência do corpo por mil afazeres que nos impomos na vida moderna.
Há menos de meio século, a Amazônia se denominava “O Vale”, “O Vale Amazônico”.  Amazônia é invenção recente, de quem não tem tempo para pronunciar frases que enunciam circunstâncias.  Perdemos ao trocar os nomes das gentes, das coisas e dos tempos em tupi e em diversas línguas de povos originais por marcas internacionais rastreáveis e registráveis (e descartáveis).  Não ser encontrável é parte da essência da natureza.  Pior, hoje nos contentamos com apelidos, siglas e abreviações, cada vez mais breves.
Ao lado das majestades-cidades, monstroscidades, flutuam aqueles à baila do tempo, que não alcançam acertar os ponteiros para seguir os códigos da sobrevivência na labutacidade.  Em Belém, são os ribeirinhos das outras margens, invisíveis, deserdados, sem permissão.  O que para alguns são pitorescas paisagens verdes constitui-se no viver de milhares de pessoas.  E porque tudo o que produzem vem do “tempo”, da “rua”, nada tem valor – o peixe, o camarão, a farinha, o cesto, a fruta.  Mesmo o açaí, recém-descoberto, não lhes cobre a conta.
E as ondas do “tempo” invadem os espaços mais imprevisíveis.  A noção de sertão é ditada pela capacidade de alcance do telefone celular e do mapa do Google.  Se na deserta praia é possível falar ao celular, o encanto oferecido pela imensidão, a maré de mais de 5 metros e a explosão de luz parecem desaparecer, uma vez que o “tempo” se oferece para o controle.
Antes, o sertão era o limite entre a luz e a sombra, entre a casa e o mato, entre o mito e o conhecido.  O mito, a tradição oral, delimitava, de maneira graciosa (e apavorante).  À medida que as ondas dos televisores e celulares iluminam as casas, os mitos se acanham.  Se antes menino não ia pra beira do lago pra cobra-d’água não o engolir, agora nada parece amedrontá-lo.  O tempo da Mãe-d’água, do Mapinguari, do Boto extravia-se para os mais recônditos lugares.
Se Belém agendava seus encontros no tempo “do antes da chuva” e “do depois da chuva”, hoje o “tempo” se rege para antes ou depois do trânsito pesado de veículos.  Ao fechar o vidro e acionar o ar-condicionado não dispomos de tempo para a maré, o vento, o sol, a passagem das garças e urubus.  Difícil é reconhecer limites, ou melhor, difícil é encontrar a convivência entre homem e natureza, entre casa e rua.
O Brasil tropical (quatro quintos do País estão nos trópicos) não foi feito para servir, deliberadamente, ao tempo.  São Paulo, por exemplo, é indecisa, entre os dois lados da linha de Capricórnio.  De um lado, a cobra-grande nos exige um pouco mais de imaginação, menos ganância e mais tempo, para não dizer limites: que ali não se deve chegar, que a partir desse ponto se corre perigo.  De outro, estamos mais que cientes que o tempo torna a vida insossa, monótona, previsível; é como saber o cardápio de segunda-feira do mês que vem do intolerável restaurante industrial.
Aos viajantes que visitaram a Amazônia, o que mais impressionou foi o descompromisso com o “tempo”, o desinteresse em se prevenir diante do amanhã.  Quando arguido como faria amanhã se não houvesse peixe, o caboclo retrucava: se não conseguisse o alimento, certamente seria porque estava “panema”.  Pleno de significados é este termo “panema”.  Resumidamente, pode-se entender como “sem sorte”.  Confiante, o caboclo seguiria adiante, até se ver livre da panema.  Seguiria alguns rituais, jejuns, rezas, ditados, banhos de cheiro, até que recobrasse a sua “sorte”, o seu “tempo”.  Destarte, bem ou mal, o caboclo aprendeu a viver a “casa” e a “rua”, o “tempo” e a “natureza”.
Antes de pular para o próximo galho da evolução, o homem deveria maquinar se não haveria um “presente-mais-que-presente”, carente de compreensão, tal qual a natureza humana, binômica, homem-natureza, sem aspas…
*Dirige o Instituto Peabiru, em Belém, e é autor de Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros) e O Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro)
Save the planet!

28.1.10

pense no Haiti, reze pelo Haiti...



Quando ouvia o refrão desta música do Gil, não imaginava que um dia ele soaria tão verdadeiro aos meus ouvidos. De todas as coisas que li sobre a tragédia deste país pobre e devastado pelo terremoto, fui encontrar relatos definitivamente humanos justamente na Veja, a revista que tantas vezes me decepcionou por querer ditar verdades. Só que tudo tem dois lados e desta vez ela mostrou verdades através dos olhos e do coração do repórter Diego Escosteguy.

Ele diz: 

"Como num cenário pós-apocalíptico, o Haiti consome-se depois do terremoto. Os fracos se encolhem, os fortes se enfrentam e os mortos alimentam fogueiras humanas. No meio de tudo, cada resgate reacende as esperanças"

"Num gesto que ilustra a formidável capacidade de resistência do ser humano, um grupo de professores e voluntários criou uma escolinha na praça. Eles cuidam de 270 crianças, dando aulas de francês, matemática e ciências, intercaladas com atividades lúdicas de canto e dança. As crianças sentam-se num chão de pedra para participar das atividades. Muitas têm sede e fome - 39 delas são órfãs. Diz Clarénce Johnny, coordenador da escolinha improvisada: "É uma forma de ocupar a cabeça das crianças e tentar fazer com que elas olhem para frente". Eram 17 horas, e ele estava dando aula em jejum".

"As grandes catástrofes têm um aspecto surreal. O que é mais necessário parece óbvio: água, comida, energia, socorro médico. De repente, alguém pensa: dinheiro também, como a sociedade vai se manter sem ele? E lá foram forças da ONU, incluindo militares brasileiros, resgatar os cofres dos bancos - num momento em que ainda se conseguia resgatar sobreviventes"


"O Haiti, como a alma humana, é feito de incertezas. Saí de lá com apenas uma certeza: deixei o Haiti, mas o Haiti nunca me deixará".
Podemos ver o Haiti através de seus olhos.

Se você quiser ler, ver e ouvir o que ele presenciou, vá até o site da revista clicando AQUI.

Para doar qualquer quantia a entidades confiáveis em favor daquele povo, por favor, clique AQUI.

Pense no Haiti, reze pelo Haiti...
Save the planet!

11.1.10

Avatar: metáforas bem reais


Uma nação que vive em harmonia com a natureza é ameaçada por outra, cuja ganância aparentemente ilimitada visa o enriquecimento através da exploração de recursos naturais.

Uma nação não mata por matar, outra acredita que isso é necessário.

Uma tem por princípio a gratidão. Outra, o desejo de dominar.

Uma tem poderes mentais, espirituais e habilidades físicas para a auto-defesa e a arte de guerrear em caso de necessidade. Outra usa a mente para desenvolver tecnologias capazes de dominar, matar, poluir, explorar o que não lhe pertence.

Uma vê a Terra como espaço sagrado, sabe que faz parte da grande teia da vida, que tudo está conectado. Tem consciência de sua importância para garantir a própria sobrevivência. Outra vê o planeta como “coisa” que deve ser explorada de acordo com seus desejos de conforto e de muito dinheiro no cofrinho.

Um homem da nação gananciosa se permite aprender. Abre seu coração, esvazia o copo e diz “ok, nação esquisita, o que você tem pra me ensinar?”. E adquire sabedoria ao enxergar com os olhos do espírito.

Só que neste filme, ao contrário do que vemos na “vida real”, quem vence é a nação que sente, a nação do SER. A nação do TER perde, humilhada. Os mais fortes, neste filme, não são os que têm armas e ganância, mas os que vivem de acordo com princípios elevados.

A esperança enche meu coração: este já é o filme de maior bilheteria na história - tem sido visto diariamente por 45 milhões de pessoas desde a estreia, 42 dias atrás*.

Será que humanidade também quer esvaziar o copo para aprender verdades imperecíveis implícitas em Avatar?

Save the planet!
* Dados atualizados no dia 2 de fevereiro. A esperança enche mais ainda o meu coração.