15.9.06

feliz primavera!


Daqui a pouquinho começa a primavera. Para comemorar, selecionei três textos bem diferentes pra você: um grandão do querido Drummond, que alegra e inspira. Outro de Fernando Pessoa, pequeno e simples, para a gente se interiorizar com uma interrogação de leve na cabeça e, por fim, um do Dr. Celso Charuri, médico e filósofo, para refletir sobre o quanto a natureza pode nos ensinar.
Aproveite os dias lindos da primavera, mesmo que não seja nem maio, nem abril...
:)
Eu sei que este post agigantou, mas você pode pular o texto que não quiser ler. E feliz primavera para a gente! Ela começa sábado, 23 de setembro.

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Dias lindos
Carlos Drummond de Andrade

Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: "Os dias ficaram lindos." Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade.
Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial.
Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento.
Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos.

E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. A temperatura ficou amena, conduzindo à revisão do vestuário.

Protege-se um tudo-nada o corpo, que vivia por aí exposto e suado, bufando contra os excessos da natureza.

Sob esse mínimo de agasalho, a pele recebe a visita dos dias lindos.

A cor. Redescobrimos o azul correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço.

O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fabricadas.

A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar os vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.
O ar. Ficou mais leve, ou nós é que nos tornamos menos pesados, movendo-nos com desembaraço, quando, antes, andar era uma tarefa dividida entre o sacrifício e o tédio? Tornou-se quase voluptuoso andar pelo gosto de andar, captando os sinais inconfundíveis da presença dos dias lindos.
Foi certamente num dia com estes que Cecília Meireles escreveu: "A doçura maior da vida flui na luz do sol, quando se está em silêncio. Até os urubus são belos, no largo círculo dos dias sossegados.
"Porque a primeira conseqüência da combinação de azul e leveza do ar é o sossego que baixa sobre nosso estoque de problemas. Eles não deixam de existir. Mas fica mais fácil carregá-los. Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão.

Será egoísmo curti-los na moita, deixando de comentar com os amigos e até com desconhecidos, que por acaso ainda não perceberam o raro presente de abril: "Repare como o dia está lindo." Não precisa botar ênfase na exclamação.

Pode até fazê-la baixinho, como quem transmite boato e não deseja comprometer-se com a segurança nacional. Mesmo assim, a afirmação pega. Não só o dia fica mais lindo, como também o ouvinte, quem sabe se distraído ou de lenta percepção sensorial, ganha a chance de descobri-lo igualmente.

Descobre e passa adiante a informação. A reação em cadeia pode contribuir para amenizar um tanto o que eu chamo de desconcerto do mundo. De onde se conclui: deixar de lado, mesmo por instantes, o peso dos acontecimentos mundiais, trágicos, esmagadores, para degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz, é um passo dado para reduzir o desconcerto do mundo, na medida em que a boa disposição de espírito de cada um pode servir de prefácio, ou rascunho de prefácio, à pacificação, ou relativa pacificação, dos povos e seus dominadores.

Em vez de alienação, portanto, o prazer dos dias lindos é terapia indireta. Pode ser que o desconhecido lhe responda com um palavrão, desses em moda na sociedade mais fina. Não faz mal. Não se ofenda. Ele descarregou sobre a sua observação amical o azedume que ameaçava corroê-lo no íntimo. Livre desse fel, talvez se habilite a olhar também para o céu e a descobrir mesmo certa beleza esvoaçante do urubu. De qualquer modo, foi avisado.

Já sabe que o que estava perdendo: a consciência de que certos dias de abril e maio são mais lindos do que os outros dias em geral, e nos integram num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente.

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Se digo que as flores sorriem...
Fernando Pessoa

Se às vezes digo que as flores sorriem e seu disser que os rios cantam, não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores e canto no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos. A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem, sacrifico-me às vezes à sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me.
Porque só sou essa coisa séria, um intérprete da Natureza, porque há homens que não percebem a sua linguagem, por ela não ser linguagem nenhuma.

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Outono
Dr. Celso Charuri

No outono, quando os frutos abandonam as árvores que lhe fizeram nascer e jogam–se ao chão...
No outono, quando as folhas verdes perdem o seu viço e param de alimentar, com seu metabolismo de néctar etéreo das radiações solares a abandonam...

No outono, quando os pássaros migram para novas paragens, colocando o silêncio e a tristeza em torno das árvores que lhe acolheram durante as boas estações somente para lhes ouvir o canto alegre e festivo, e sem mais nada pedir...

No outono, quando a própria terra, que se beneficiou de sua sombra fresca, torna-se árida, negando alimentação...

No outono, quando todos aqueles que a admiram e aproveitam a sua beleza também a abandonam, a árvore mantém-se viva e serena. Não desanima e aguarda. Conhece a sua missão e não se desespera. Não odeia e nem se vinga. Sabe que à humilhação sobrevirá a exaltação, e, por isso, aguarda com soberba coragem o inverno que haverá de cobri-la com nuvens cinzentas e lamacentas de humilhação, numa tentativa final de destruí-la.

Mas na sua seiva corre o Espírito do Eterno, ela disso sabe, tem consciência. E, numa atitude passiva e resignada, entende a efemeridade dos tempos.

Então, passados estes, vê nascer em seu distante ramo um broto, como que lhe anunciando as recompensas por tamanha coragem. É a primavera que surge.

E, novamente, a terra volta a lhe dar alimento, as folhas retornam com seu verde de esperança, os pássaros em seus galhos fazendo morada, as flores e frutos a lhe enfeitar e, finalmente, as pessoas a lhe admirar.

É a glória, conquanto que passageira, mas por demais nobre para ser desprezada.

Nas estações de outono, saiba imitar a árvore.
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Save the planet!

3 comentários:

annete disse...

feliz primavera para todos!
tudo bem que o tempo está mudaaaado, mas não importa. quem não gosta do clima - digo, sensações, cheiros e emoções - desta estação tão romântica, não é mesmo?
:)
lindos escritos.
bjos, annete

Fabi disse...

Amiga, meu coração doi muito hoje... como podemos salvar nosso planeta?! Nossa mãe terra!? Até sinto o pedido de socorro dela.... Mas como atende-la!?!?!

Informação... Oração ....

bjoca

Fabi

Karina Miotto disse...

Amiga Fabi! Você respondeu com duas palavras mágicas: informação e oração. Além delas, há uma outra: ação.
A partir do momento em que tomamos conhecimento de uma coisa, que nos tornamos conscientes da urgência em ajudar o nosso planeta e todos os seres que nele habitam, uma força enorme nasce dentro de nós e nos impulsiona à ação. Podemos fazer as coisas mais simples em nosso dia a dia, desde fechar a torneira ao escovar os dentes até reciclar. Mas também podemos apliar nossa ação conversando com as pessoas, passando a mensagem adiante, incentivando e tocando outros corações. Assim, fortalecemos a corrente. Quanto mais pessoas conscientes houver no mundo, mais bem cuidado nosso lindo planeta estará. E quanto mais saudável ele for, melhor para cada um de nós. Não é verdade? beijo no coração, com informação, oração e ação! Save the planet!